Eclipse (Carlos Assumpção)
Olho no espelho
E não me vejo
Não sou eu
Quem lá está
Senhores
Onde estão os meus tambores
Onde estão meus orixás
Onde Olorum
Onde o meu modo de viver
Onde as minhas asas negras e belas
Com que costumava voar
Olho no espelho
E não me vejo
Não sou eu
Quem lá está
Senhores
Quero de volta
Os meus tambores
Quero de volta
Os meus orixás
Quero de volta
Meu Pai Olorum
Em seu esplendor sem par
Quero de volta
O meu modo de viver
Quero de volta
As minhas asas negras e belas
Com que costumava voar
Olho no espelho
E não me vejo
Não sou eu
Quem lá está
Séculos de destruição
Sobre os ombros cansados
Estou eu a carregar
Confuso sem norte sem rumo
Perdido de mim mesmo
Aqui neste lado do mar
Um dia no entanto senhores
Eu hei de me reencontrar
Carlos Assumpção – o poeta invisível
https://www.youtube.com/watch?v=ZA16vUz7pnc
Carlos Assumpção nasceu em 1927 em Tietê (SP) e radicou-se em Franca, adotando a cidade como ponto de resistência e produção para sua vasta obra literária. Entendedor da força da palavra, o poeta é um ícone na obra de resistência negra no Brasil. Ele é neto de Cirilo Carroceiro, que deixou de ser escravizado pela Lei do Ventre Livre (1871). O avô, analfabeto, era quem contava histórias testemunhais sobre a escravidão, as marcas desse período e servia de contraponto para o garoto que lia uma história diferente nos livros didáticos. O pai de Carlos Assumpção também era analfabeto, mas tinha habilidade na palavra contada. A mãe dele era alfabetizada, amante da poesia e trabalhou como cozinheira e ainda lavava roupa para fora.
Sua formação foi construída com pilares para entender o mundo a sua volta e o que familiares e tantos outros negros sofreram no passado e ainda vivem hoje. Na idade adulta, conseguiu formar-se em Direito e Letras e ainda trabalhou como professor para crianças ao estudar o então chamado curso Normal. Críticos, estudiosos e outros poetas igualam Carlos Assumpção a nomes como Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gular. O poeta já é parte da história da literatura e protagonista na atual construção da poesia no século XXI.
Mesmo com a grandeza da sua obra, Carlos é considerado “poeta invisível”, uma vez que seu trabalho não é conhecido como deveria. Com 95 anos, ele usa os meios digitais para ajudar espalhar suas palavras e poesias. Com seu número de WhatsApp, dispara seus poemas para a lista de contatos e enche o dia com uma mensagem verdadeira, comprometida e autoral de quem sabe atuar a favor da resistência para a vida.
Obras
Apesar de ser um decano da literatura afro-brasileira, Carlos de Assumpção estreou em publicação individual somente em 1982, aos 55 anos, com o livro “Protesto”.
Nas décadas seguintes lançou mais quatro volumes de poemas (“Quilombo”, 2000; “Tambores da Noite”, 2009; “Protesto e Outros Poemas”, 2015; “Poemas Escolhidos”, 2017).
Já a obra “Não Pararei de Gritar” reúne sua poesia completa: os cinco livros mais outros nove poemas inéditos, escritos entre 2018 e 2019.