Messi autista?

 

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Quase 1 em cada 2 adultos com autismo também tem TDAH ao longo da
vida: por que a combinação muda o diagnóstico na fase adulta
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Durante muitos anos, autismo e transtorno do déficit de atenção e
hiperatividade (TDAH) foram estudados como condições separadas.

Hoje a ciência mostra que elas coexistem com frequência maior do
que se imaginava. A meta-análise mais completa sobre o tema,
publicada em 2021 na revista científica Research in Autism
Spectrum Disorders, reuniu 63 estudos e encontrou que 22,4% dos
adultos com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam TDAH
ativo, e 44,4% já tiveram TDAH em algum momento da vida.

A relação também aparece no caminho inverso. Um estudo publicado
em 2022 na revista científica European Archives of Psychiatry and
Clinical Neuroscience avaliou adultos com diagnóstico de TDAH que
nunca haviam recebido diagnóstico clínico de autismo.

Usando o ADOS-2, um dos instrumentos padrão-ouro para avaliação
de autismo, os pesquisadores encontraram que 23,3% desses adultos
preencheram critérios para uma classificação diagnóstica de TEA,
com maior dificuldade em interação social recíproca. O achado
reforça que a investigação deve caminhar nas duas direções: nem
todo TDAH que carrega dificuldades sociais é apenas TDAH.

Essa combinação ganhou um nome popular: AuDHD, junção de “Autism”
e “ADHD” em inglês, que alguns têm traduzido informalmente como
AuTDAH em português — uma tradução literal, ainda sem uso
consolidado no Brasil. É importante esclarecer que esse termo não
nasceu em consultórios nem em manuais diagnósticos: ele surgiu
dentro da própria comunidade neurodivergente, nas redes sociais,
como uma forma de nomear a experiência de viver com as duas
condições ao mesmo tempo.

Não existe “AuDHD” no DSM-5-TR nem na CID-11; a terminologia
formal usada pela ciência ainda é “TEA e TDAH comórbidos” ou
“coocorrentes”. Ainda assim, o termo já apareceu em pelo menos um
estudo científico revisado por pares publicado em 2025, sinal de
que a expressão popular está, aos poucos, encontrando espaço
também na pesquisa.

Para o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no tratamento
de autismo e TDAH em adultos, compreender essa coexistência
representa uma das mudanças mais importantes da neurologia
comportamental nos últimos anos. Segundo ele, o desafio deixou de
ser identificar apenas um transtorno e passou a ser entender como
diferentes características interagem no mesmo cérebro.

“Muitas pessoas passaram décadas acreditando que tinham apenas
ansiedade, depressão ou dificuldade de organização. Quando
investigamos toda a história de vida, percebemos que, em alguns
casos, autismo e TDAH sempre estiveram presentes, mas um acabava
mascarando o outro”, explica Dr. Matheus.

Até 2013, os critérios diagnósticos impediam formalmente que a
mesma pessoa recebesse os dois diagnósticos. O DSM-IV, manual de
referência da psiquiatria na época, proibia diagnosticar TDAH em
quem já tinha TEA — e o inverso também não era permitido. Com a
publicação do DSM-5, em 2013, essa restrição caiu, permitindo
reconhecer oficialmente a coexistência e impulsionando uma onda
de pesquisas que mudou a prática clínica em todo o mundo.

Na vida adulta, o diagnóstico costuma ser mais complexo porque
muitos pacientes desenvolveram estratégias de compensação desde a
infância. Alguns aprenderam a reproduzir comportamentos sociais
esperados, um fenômeno que a literatura descreve como
mascaramento ou camuflagem social. Um estudo publicado em 2024 na
revista Autism Research comparou essa estratégia entre 105
adultos autistas, 105 adultos com TDAH e um grupo de comparação
sem os dois diagnósticos.

O resultado mostrou que os adultos com TDAH também mascaram mais
do que pessoas sem nenhum dos dois diagnósticos, porém em
intensidade menor do que os adultos autistas. Curiosamente, o que
mais explicou o nível de mascaramento não foi a intensidade dos
sintomas de TDAH, e sim a presença de traços autistas, mesmo em
quem tinha apenas o diagnóstico de TDAH. Além do mascaramento,
muitos organizaram rotinas extremamente rígidas para compensar
dificuldades de atenção, e muitos receberam diagnósticos de
ansiedade, depressão ou síndrome de burnout antes que o quadro
completo fosse reconhecido.

Segundo Dr. Trilico, uma das características mais curiosas dessa
combinação é que o cérebro pode apresentar comportamentos
aparentemente contraditórios. Enquanto o autismo costuma
favorecer previsibilidade, rotina e organização, o TDAH está
associado à impulsividade, à distração e à busca por novidade.

“É comum ouvir relatos como: preciso de rotina, mas não consigo
mantê-la; gosto de organização, mas me perco facilmente; preciso
de silêncio, mas ao mesmo tempo procuro estímulos o tempo todo.
Essas aparentes contradições podem fazer parte da coexistência
entre autismo e TDAH e o custo funcional dessa oscilação
constante é real: cansaço, sobrecarga e frustração acumulada”,
ressalta o neurologista.

Um estudo publicado em 2022 na revista Autism, com 724 adultos
autistas entre 18 e 83 anos, encontrou que quanto mais intensos
os sintomas de TDAH relatados, menor a independência nas
atividades do dia a dia e menor a qualidade de vida percebida.
Além das dificuldades de atenção e interação social, adultos com
as duas condições apresentam maior risco de ansiedade, depressão,
exaustão emocional, disfunção sensorial e dificuldades nos
relacionamentos e no ambiente profissional. Por isso, o
diagnóstico correto modifica completamente a estratégia
terapêutica.

De acordo com o neurologista, o tratamento precisa ser
individualizado. Dependendo do caso, pode envolver medicação,
psicoterapia, psicoeducação, orientação familiar, adaptações na
rotina, organização do ambiente de trabalho e estratégias para
reduzir a sobrecarga sensorial.

“O diagnóstico não muda quem a pessoa é. Ele permite compreender
uma trajetória inteira e construir estratégias mais eficientes
para melhorar a qualidade de vida, tanto da pessoa diagnosticada
quanto de quem convive com ela. Nosso objetivo não é rotular
pessoas, mas oferecer um cuidado mais preciso e humano”, explica
Dr. Matheus.

Se você se identificou com as descrições deste texto, a sensação
de viver entre contradições, o histórico de diagnósticos que
nunca pareciam explicar tudo, ou décadas tentando entender por
que certas estratégias simplesmente não funcionavam para você,
vale a pena conversar com um profissional especializado em TEA e
TDAH adulto.

Entender como o seu cérebro funciona não é o fim de uma busca,
mas o início de um caminho mais claro para viver melhor com ele.

Sobre o especialista

Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818

* Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília
(FAMEMA);
* Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da
Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR);
* Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR;
* Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Mais conteúdos sobre TEA e TDAH em adultos estão disponíveis no
portal do especialista:

Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no
portal do neurologista:
https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
( https://emailmarketing.andreafeliconio.com.br/c/lxwm9q/yctlwvru/ca2mk4q2pq8 )

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AF Conexão- assessora e jornalista responsável Andrea Feliconio.
(11) 99144-9663 ou andreafeliconio@gmail.com