Neste sábado (27) e domingo (28): “Encontro com Mestres” promove oficinas e shows de ícones do choro, em dois dias de ações na Lagoinha

maio 24, 2023

Projeto do grupo Regional da Serra promove, neste sábado (27) e domingo (28), programação gratuita no Mercado da Lagoinha e no Centro Cultural Liberalino Alves, reunindo aprendizes e músicos renomados como João Camarero, Caetano Brasil, Henrique Araújo e o grupo Abre a Roda: Mulheres no Choro


Reconhecido como o primeiro estilo musical brasileiro, desde a década de 1920 o chorinho reúne instrumentistas de alto calibre em rodas espalhadas principalmente pelas periferias das cidades, afirmando a importância da tradição oral para a troca de conhecimento entre os músicos. Com o avanço da tecnologia e das relações virtuais, esses ambientes nem sempre se mantêm vivos como deveriam. Para incentivar a formação de novos artistas e cultivar os aprendizados presenciais, o projeto “Encontro com Mestres”, idealizado pelo grupo mineiro Regional da Serra e pela produtora Grupo Dolores, vai promover neste sábado e domingodias 27 e 28 de maio, no Mercado da Lagoinha, shows e oficinas gratuitas com alguns dos maiores nomes do choro no país, incluindo Caetano Brasil, Henrique Araújo e os grupos Regional Imperial e Abre a Roda: Mulheres no Choro.

 

Formado em Belo Horizonte por Daniel Nogueira (pandeiro), Daniel Toledo (violão sete cordas), Pedro Alvarez (flauta) e Pablo Dias (cavaco), o Regional da Serra surgiu após o fim da roda de choro do Salomão, que até 2018 reunia a nata do chorinho belo-horizontino no famoso bar da Serra. De lá para cá, os chorões da cidade começaram a ocupar outros espaços e a reverberar projetos inéditos, interessados em formação artística e de público. Neste ano, o grupo Regional da Serra idealizou o festival “A Praça do Choro é Nossa”, entre janeiro e fevereiro, levando o choro a feiras populares; e realizou o “Encontro Regional da Serra com o Melhor Público”, que apresentou shows em lares de idosos durante o mês de abril.

 

Agora, o projeto “Encontro com Mestres”, realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, dá um passo a mais para a conservação da cena de choro em Belo Horizonte e pretende promover o encontro de músicos iniciantes e experientes com o público interessado em aprender e apreciar o choro. “Em um dos nossos projetos passados, fizemos uma oficina com o Regional Imperial, e percebemos a potência que os encontros têm para o gênero. Tinha desde pandeirista de oito anos de idade, trazido pelo pai, que é instrumentista da cena de choro, até o Zé Carlos, um senhor de mais de 80 anos, que toca cavaquinho. Depois disso, desenvolvemos o ‘Encontro com Mestres’ pensando em trazer para a comunidade musicista de choro a possibilidade de encontro com outros profissionais, que muitas vezes não temos acesso por falta de oportunidade”, explica a produtora Luciana Brandão.

 

Apesar do choro ser um gênero afro-brasileiro periférico, nascido e criado nos mesmos becos e vielas do samba e da expressão popular do Carnaval, a cena do gênero em todo o país é majoritariamente ocupada por homens brancos, nem sempre conectados às raízes de uma música desenvolvida essencialmente por trabalhadores negros e pobres. Como uma resposta a esse sintoma, o “Encontro com Mestres” prezou por conservar a tradição ao mesmo tempo em que diversificou os convidados, ofertando shows e oficinas pensadas para expandir o gênero.

 

De um lado, o grupo Regional Imperial, do Rio de Janeiro, representa o choro clássico em sua formação com dois violões, um cavaquinho e um pandeiro. Composto pelos músicos João Camarero (violão de 7 cordas), conhecido por tocar com Maria Bethânia, Glauber Seixas (violão), Lucas Arantes (cavaquinho) e Rafael Toledo (pandeiro), o grupo se espelha nos clássicos da década de 1930, quando a denominação regional era usada para os instrumentistas que faziam sucesso nas emissoras de rádio, a exemplo de Benedito Lacerda, Canhoto e o grupo Época de Ouro.

 

Em certo contraponto à tradição, o grupo Abre a Roda - Mulheres no Choro apresenta clássicos do ritmo em uma roupagem original, a partir de arranjos criados e executados apenas por mulheres. Para além dos instrumentos tradicionais, a roda feminina de chorinho acrescenta o sax, o violino e o piano como componentes bem azeitados com o cavaquinho, a flauta e o pandeiro. Formado em 2017, na capital mineira, o nome do grupo anuncia sua função: abrir a roda para que as mulheres instrumentistas possam tocar, cantar e encantar o público, em um universo predominantemente masculino. Atualmente, o Abre a Roda é composto por Maria Elisa Pompeu (cavaquinho), Luciana Alvarenga (piano), Alice Valle (flauta), Thamiris Cunha (clarinete), Marina Gomes (voz e percussão), Raíssa Anastasia (flauta e bandolim), Maria Bragança (sax), Shari Simpson (flauta), Fernanda Vasconcelos (violão), Claudia Sampaio (sax) e Bárbara Veronez (voz).

 

Em outra perspectiva, dois artistas convidados para o projeto estampam a versatilidade contemporânea do choro. Em um extremo, o clarinetista, saxofonista e compositor Caetano Brasil, se afirma como homem negro e LGBTQIA+, inserindo referências distintas ao choro, do rock à MPB. Indicado ao Grammy Latino em 2020, o músico percorre do choro ao politonalismo de Villa-Lobos, passando pela improvisação do jazz até a música caribenha e judaica, colocando em arranjos de choro de tudo um pouco: de Queen a Radamés Gnattali.

 

Já o músico paulistano Henrique Araújo, outro instrumentista negro que vai do clássico ao pop com fluidez, se firmou como uma das referências do bandolim no país, tendo acompanhado artistas como Nelson Sargento, Criolo, Renato Teixeira e Zeca Baleiro. Há mais de uma década ele integra a banda da cantora Fabiana Cozza e atua como professor e fundador da Escola de Choro de São Paulo e professor da Escola de Música do Auditório do Parque Ibirapuera.

 

Lagoinha


As apresentações do “Encontro com Mestres” são gratuitas ao público e começam a partir das 13h, no imponente Mercado da Lagoinha. Haverá show especial do grupo Abre a Roda: Mulheres no Choro, além de duas dobradinhas concebidas especialmente para o projeto, entre Regional da Serra e Caetano Brasil; e Regional Imperial e Henrique Araújo. O encerramento dos shows será com chave de ouro, conduzido pelo bloco de carnaval Orisamba, do Terreiro CCPJO – Centro de Caridade Pai Joaquim do Oriente, que é referência de expressão cultural na região da Lagoinha.

 

O bairro, aliás, tem um simbolismo à parte para os chorões, por ser um das primeiras regiões residenciais de origem operária da cidade, nascido fora dos limites estabelecidos no século XIX para Belo Horizonte, e que recentemente tem passado por investidas de cuidado e efervescência cultural. “A Lagoinha é um lugar muito importante para a cidade. É um bairro antigo, por onde a cidade se estruturou, e foi o povo que construiu e edificou a cidade. Muito do chorinho e do samba vieram dali, já que são manifestações afro periféricas”, diz Bruna Toledo, produtora pelo Grupo Dolores.

 

Com a premissa de acolher a maior diversidade possível não apenas em cima do palco, a escolha do Mercado da Lagoinha também favorece a presença de um público diverso, incluindo jovens, idosos e famílias com crianças. “O Mercado é um espaço muito diverso, é possível acolher famílias, com bons banheiros, uma boa equipe de atendimento, e um lugar que a juventude também gosta de frequentar. E no nosso projeto nós temos um plano de acessibilidade, não apenas para fazer tradução de Libras durante os shows, mas vamos ter auxílio para pessoas com diversas deficiências, como pessoas cegas, mudas, surdas, com mobilidade reduzida. Preparamos profissionais para ajudar com os atendimentos e outras questões” completa Luciana.

 

Oficinas

Já as oficinas estarão concentradas no Centro Cultural Liberalino Alves, localizado ao lado do Mercado da Lagoinha. Cada atividade terá o máximo de 30 vagas, com média de três horas de duração. As inscrições serão realizadas por meio deste link, no qual os interessados deverão acessar e preencher um formulário com dados básicos de contato pelas respectivas oficinas procuradas. As vagas serão preenchidas por ordem de inscrição, considerando ainda como critério norteador de escolha o envolvimento e conhecimento prático do participante no instrumento por ele escolhido. Haverá reserva de 5% das vagas das oficinas para pessoas com deficiência e 30% para mulheres, mães de criança na primeira infância, pessoas negras e LGBTQIA+.

 

Durante as masterclass, o grupo Regional Imperial ficará por conta de apresentar ensinamentos sobre os instrumentos básicos do choro, suas construções e lugares no grupo musical e os modos de desenvolvimento das cadências e harmonias. A proposta do bandolinista Henrique Araújo chama-se “Batuca Bandola”, uma oficina de bandolim que busca analisar e comentar músicas que contém solos, harmonias e contracantos de bandolim no samba, marcados pela interpretação de nomes consagrados do instrumento como Jacob do bandolim, Niquinho e Zé Menezes, além de musicistas atuais da cena do samba – para participar, é necessário ter um bandolim de oito ou dez cordas.

 

Já Caetano Brasil vai conduzir um descontraído exercício de improvisação no choro, enquanto o grupo Abre a Roda propõe uma perspectiva de popularização do choro entre as mulheres. A ideia é que as participantes possam ser iniciadas em algum dos seguintes instrumentos: clarineta, flauta, saxofone, cavaquinho, violão, piano ou pandeiro, e também tenham contato com noções de ritmo, interpretação, afinação e articulação, por exemplo.

 

“A proposta desse projeto é a possibilidade do encontro democrático, com acesso para as pessoas que buscam não apenas melhorar a sua formação técnica, ou seja, se tornar um músico mais habilidoso, mas também no sentido de ser um profissional da música que capta outras camadas, aprofundando o senso de profissionalismo da nossa cena de Belo Horizonte”, avalia Luciana.

 

Sobre o Regional da Serra


O Regional da Serra, tal como se configura hoje, também deriva do processo de reinvenção da cena de choro da capital mineira, a partir de 2018. “Crias” da roda do Salomão, os quatro músicos belo-horizontinos, que já tocavam juntos em alguns trabalhos profissionais, decidiram, nessa época, oficializar o grupo e batizaram-no com o bairro que os conectou. “Colocamos o nome em homenagem ao bairro onde fica o Salomão, juntando com essa coisa tradicional do choro, do ‘regional’. Geralmente, os ‘regionais’ têm violão sete cordas, violão seis cordas, pandeiro e cavaco. E tocam sem muitos improvisos. No nosso caso, só temos um [violão] sete cordas, mas nos inspiramos nos regionais mais na forma tradicional de executar as músicas e no repertório”, afirma o cavaquinista Pablo Dias, que cita nomes como Altamiro Carrilho, Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Este já é o terceiro projeto executado em parceria com o Grupo Dolores composto por Bruna Toledo e Luciana Brandão.


Os músicos do Regional da Serra trabalham individualmente e em outros coletivos há dez anos, tocando em bares tradicionais de BH, como Pedacinho do Céu, Bar Brasil 41, Bar do Bolão, Bar Vila Rica, Bar Muringueiro e o já citado Bar do Salomão. Já tocaram com importantes nomes da música brasileira, como João Camarero (violão sete cordas, RJ), Antônio Rocha (flauta, RJ), Hamilton de Hollanda (bandolim, DF), Zé da Velha (trombone, RJ) e Silvério Pontes (trompete, RJ), Yamandú Costa (violão sete cordas, RS), Monarco (cantor e compositor da Velha Guarda da Portela, RJ), Seu Mozart (violão, BH), Luiz Melodia (cantor e compositor, RJ), Emanuel Fulton Casara (bandolim, RO) e Pedro Paes (Saxofone, RJ). Entre os mineiros, estão Ausier Vinícius (cavaquinista, BH), Acir Antão (cantor e presidente do Clube do Choro de Belo Horizonte, BH), Seu Tião do Bandolim (Bandolim, BH), Caetano Brasil (Clarineta, JF), Alaécio Martins (trombone, BH), Marcos Flávio, (trombone, Betim), Artur Pádua (intérprete e violão, BH) e Paulinho Pedra Azul (intérprete e compositor BH).


SERVIÇO

Regional da Serra e Grupo Dolores apresentam

“Encontro com Mestres”

 

Oficinas

Quando. Dia 27 de maio, sábado

Onde. Centro Cultural Liberalino Alves (Av. Antônio Carlos, 821, São Cristóvão)

Oficina 1 - Abre a Roda: Mulheres no Choro - "Abrindo a Roda - Prática de Conjunto para Todes” - Das 9h às 11h30

Oficina 2: Caetano Brasil — “Introdução à Improvisação na Linguagem do Choro’ - Das 13h às 15h30

Oficina 3: Henrique Araújo — “Batuca Bandola” - Das 13h às 15h30

Oficina 4: Regional Imperial — “Acompanhamento no Choro - Harmonia entre a Roda” - Das 16h àss 19h


Shows

Quando. Dia 28 de maio, domingo, a partir das 14h

Onde. Mercado da Lagoinha (Av. Presidente Antônio Carlos, 821, Lagoinha)

Abre a Roda: Mulheres no Choro / Regional da Serra e Caetano Brasil / Regional Imperial e Henrique Araújo

 

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